O fundo do poço

O que é o fundo do poço para você? Já sentiu que tinha chegado nesse lugar? Como alguém pode se permitir chegar tão fundo? Acho que essas são algumas perguntas que poderíamos fazer para pessoas que passaram por fases muito difíceis e turbulentas, onde acreditaram que estavam perdidas, sem rumo.

“A recordação é a esperança do avesso. Olha-se para o fundo do poço como se olhou para o alto da torre.”
Gustave Flaubert

Acredito que todos queremos chegar ao topo de algo, mas nessa jornada individual de subida da nossa própria montanha, acabamos esquecendo que entre um pico e outro existem os vales e que todos estamos diante da possibilidade de passar por esses lugares, muitas vezes desconfortáveis, repletos de aprendizados.

Em 2018 acredito que vivi essa experiência, talvez tenha sido a primeira vez que me percebi muito perdida, fora de controle, esgotada, cansada, sem rumo, cheia de feridas, lamentações, frustrações e quase sem esperança. Foram dias nublados mesmo diante do Sol mais radiante que meus olhos podiam enxergar.

Por mais iluminado que os dias eram, mesmo com tantos motivos para agradecer diariamente, estava tão machucada e cansada de lutar que não conseguia enxergar as preciosidades espalhadas pelo caminho. Nunca fui uma pessoa de compartilhar as dores, de pedir ajuda, de aceitar que tinham pessoas que queriam e podiam me ajudar genuinamente.

A confiança nos outros se torna difícil quando passamos por decepções, por situações em que sentimos abandono e rejeição. Esse tipo de experiência costuma nos marcar e ferir a nossa autoconfiança e se temos dificuldade em confiar em nós, também sentiremos essa dificuldade em relação aos outros.

É como viver em estado de alerta, por mais que você queira baixar a guarda não consegue, como se estivesse em uma guerra onde relaxar é impossível, mas a verdade é que até para se lutar contra um grande inimigo precisamos relaxar e nos entregar a fluidez do momento, precisamos estar presentes, receptivos. 

O fundo do poço para mim foi uma experiência dolorosa, me senti muito perdida e pensei que nunca sairia daquele estada, tive muito medo e crises de pânico, foi uma experiência que ainda me assusta e me conecta com a minha vulnerabilidade.

O poço é uma expressão figurativa para uma experiência de desequilíbrio emocional e estado de melancolia, ansiedade e depressão. Não existia de fato um poço real onde estava, mas os meus sentimentos, sensações e a forma como agi durante quase dois anos me remetem a estar nesse lugar com pouca luz, muitas sombras, medo, umidade e frio.

“A experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido.”
Confúcio

Passar por essa experiência foi difícil, ainda não sei se realmente entendi os seus significados e aprendizados, mas desde então tenho buscado me conhecer, compreender, aprender sobre mim, me questionar sobre o que quero e porque quero, o que me motiva, me inspira, me faz feliz e o oposto a tudo isso também, porque é da nossa natureza compreender o mundo por uma visão dual.

Sinto que preciso realmente passar um tempo comigo, me cuidar de verdade, agir em coerência com o que quero realizar e com quem acredito que sou e quero ser, preciso me priorizar e manter a harmonia nas relações com os outros, conseguir preservar o meu espaço sem agredir, sem criar barreiras ou vestir uma armadura. Ainda tenho muito o que amadurecer, aprender, conhecer, experimentar e saborear.

Acredito que iluminando o meu caminho posso ajudar você a iluminar o seu, mas jamais posso fazer acender a sua luz ou realizar o seu caminho por você, ninguém pode fazer isso, só nós podemos realizar a jornada das nossas vidas, mesmo que passemos, em alguns momentos, por mares turbulentos, tempestades, frio e monstros terríveis. O Sol nunca deixa de brilhar, seja fora ou dentro de nós, ele sempre é o nosso guia, a nossa luz.

Perca-se, procure-se, encontre-se e ilumine-se.

Be brave!

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