A minha kriptonita

O Superman e todos os outros heróis tem seus super poderes e fraquezas, assim como eles nós temos assuntos e aspectos das nossas vidas dos quais costumamos fugir, muitas vezes porque olhá-los nos causa desconforto, em algumas situações até sentimos dor.

Um dos meus pontos fracos está ligado a minha autoestima, a sensação de desmerecimento e incapacidade, esse desconforto está conectado principalmente ao relacionamento com a minha mãe. Deixei de morar com ela aos 9 anos, por escolha própria, uma busca por me afastar de uma relação que, na época, era tóxica. Fazer essa escolha não foi fácil, num momento de muita dor, pânico e medo uma criança escolher se distanciar fisicamente da pessoa que mais ama não é fácil.

Essa decisão trouxe algumas consequências, minha mãe aceitou o meu pedido, mas cortou nossa relação e comunicação durante um bom tempo, além desse afastamento estava passando pelo processo de adaptação a uma nova dinâmica, comecei a morar com meu pai e tive que me adequar a sua rotina, costumes, hábitos, fazer uma visita uma vez no ano é um tipo de experiência, estar junto diariamente é outra coisa.

Foram muitas mudanças importantes acontecendo ao mesmo tempo, quando escolhi morar com meu pai não tinha consciência de que a minha vida se transformaria tanto e com o afastamento da minha mãe me senti desamparada, perdida, incompreendida, inadequada para o novo espaço que fazia parte, me sentia estranha mesmo dentro da minha família.

A relação com a minha mãe sempre foi o meu ponto fraco, durante um bom tempo falar sobre ela ou imaginar a possibilidade de encontrá-la me assustava, causava medo, angústia, me sentia impotente. A sensação era de que tinha a abandonado e sido abandonada por ela.

O sentimento de abandono reverberou em muitas das minhas relações afetivas, tendendo a me afastar bruscamente quando sentia que estavam tentando me “prender” e acreditar que a pessoa com quem me relacionava iria me abandonar a qualquer momento porque a minha mãe já tinha feito isso.

O que acontecia era a distorção da realidade e projeção da relação com os meus pais nos meus relacionamentos. Esse padrão é uma das coisas mais comuns que acontecem com todos nós. Parte das pessoas tem questões não resolvidas com a mãe ou o pai e tendem a projetar em seus parceiros e parceiras essas questões, dores, dramas.

O meu processo de compreensão da dinâmica em que me coloquei ocorreu através da busca por me curar do término de um relacionamento em que desenvolvi dependência emocional. Acreditei durante muito tempo que era culpada pelo fim da relação, por não ser boa o suficiente, que tinha sido abandonada, além de ter me fixado na ideia de que aquela pessoa era a pessoa da minha vida. Confesso que provavelmente tenha sido o meu primeiro amor, a primeira pessoa que me lembro de querer construir uma relação.

Foram quase dois anos tentando compreender e digerir a experiência e durante esse processo pude identificar os padrões de pensamento e ações que tinham como origem as dores e situações difíceis da infância. Talvez tenha sido um longo processo, amadureci muito e ainda tenho um tanto a aprender sobre os relacionamentos, sobre me relacionar. 

Costumo dizer que o que mais fazemos em nossas vidas é nos relacionarmos, nos relacionamos com pessoas, objetos, lugares, fotos, memórias, conosco todos os dias, a todo momento. Relacionar-se é uma arte complexa e bela. Amo estar com outras pessoas, conversar, compartilhar e em um certo momento entendi que precisava olhar para as minhas dores e através delas aprender a me relacionar melhor, porque a minha dor está num dos lugares de maior alegria.

Fugir sempre é uma opção, mas o melhor, por mais doloroso que seja, é olhar para a dor com compaixão e curá-la. Esse é um passo muito importante para melhorar a nossa vida e a forma como nos relacionamos com o ecossistema em que estamos inseridos, com as dinâmicas e relacionamentos que fazemos parte.

Se conheça, compreenda a sua história, jornada, trajetória e transcenda as experiências. Você não é o que acontece com você, é a pessoa que observa e vive. Seja corajoso e liberte-se do que você acredite que te prende.

Até breve!

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